Em tempos de eleição, especialmente nas disputas municipais, uma prática antiga insiste em sobreviver: a venda de voto. É uma realidade que muitos preferem fingir que não veem, mas que está presente nas conversas de esquina, nos grupos de mensagens e até nas portas das casas. Em cidades pequenas como Brejo dos Santos, no Sertão da Paraíba, isso se torna ainda mais evidente e preocupante.

Não é raro ouvir frases como “só voto se me der 500 reais”. Outros negociam seu voto por um favor imediato, por um remédio, por uma ajuda pontual que, embora possa parecer urgente naquele momento, custa caro demais para o futuro de toda a coletividade. Quando o eleitor transforma o voto em mercadoria, ele não está apenas vendendo um número na urna; está vendendo quatro anos de decisões, de prioridades e de destino para a cidade.

É preciso dizer com clareza: quem vende o voto não pode depois se colocar apenas na posição de vítima de uma gestão ruim. Quando alguém aceita dinheiro ou qualquer benefício em troca de apoio político, está, de certa forma, assinando um contrato silencioso com o descaso. O candidato que compra voto não vê o eleitor como cidadão, mas como investimento. E todo investimento, depois de feito, precisa dar retorno. O retorno, muitas vezes, vem em forma de contratos direcionados, favorecimentos, falta de transparência e abandono das políticas públicas.

Nas eleições municipais, o impacto é ainda mais direto. Prefeitos e vereadores lidam com saúde básica, educação, infraestrutura, assistência social. São decisões que afetam o posto de saúde do bairro, a merenda da escola, a estrada da zona rural, o remédio que falta na farmácia pública. Quando o voto é vendido por 500 reais ou por um simples medicamento, a conta chega depois, multiplicada, em ruas esburacadas, falta de médicos, escolas sucateadas e oportunidades perdidas.

Em Brejo dos Santos, como em tantas outras cidades do interior, todos se conhecem. Sabe-se quem prometeu, quem pagou, quem recebeu. E, no entanto, após o resultado das urnas, começa o mesmo ciclo de reclamações nas redes sociais e nas calçadas. Critica-se o prefeito, xinga-se o vereador, aponta-se o dedo para a gestão. Mas poucos têm coragem de fazer a autocrítica necessária: qual foi o preço do meu voto?

Não se trata de ignorar a realidade da pobreza, da necessidade e das dificuldades enfrentadas por muitas famílias. É justamente por isso que a venda de voto é ainda mais cruel. Ela se aproveita da fragilidade do cidadão. Mas também é preciso reconhecer que aceitar esse tipo de prática fortalece um sistema que mantém a população dependente, e não emancipada.

O voto é uma das ferramentas mais poderosas que o cidadão possui. Ele não deveria ser trocado por dinheiro fácil ou por um benefício momentâneo. Ao vender o voto, o eleitor perde a autoridade moral para cobrar, fiscalizar e exigir. Se escolheu negociar sua consciência, terá que conviver com as consequências dessa escolha.

A democracia não se constrói apenas com candidatos honestos; constrói-se também com eleitores conscientes. Enquanto houver quem venda o voto, haverá quem compre. E enquanto essa lógica prevalecer, continuaremos assistindo a gestões frágeis, pouco comprometidas com o bem coletivo.

Talvez seja duro dizer, mas é necessário: quem vende o voto ajuda a eleger a má gestão. E depois precisa entender que o silêncio cobrado por quatro anos é parte do preço pago por uma decisão tomada em poucos minutos.

Por Taan Araújo, Folha Brejo-Santense
Foto: IA/ChatGPT
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