Ao longo de cerca de 10 mil anos, homens que viveram na Europa consumiram, em média, mais carne do que mulheres. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo científico que investigou hábitos alimentares de populações antigas a partir de vestígios humanos.
A pesquisa identificou que essa diferença não foi pontual, mas persistiu ao longo de milênios. O padrão aparece desde o surgimento da agricultura até períodos posteriores à Idade Média, atravessando sociedades com diferentes formas de organização.
Os resultados foram publicados no início de abril na revista PNAS Nexus. O trabalho foi conduzido por Rozenn Colleter, do Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas, em Paris, e por Michael Richards, da Universidade Simon Fraser.
Para chegar a essas conclusões, os cientistas analisaram dados químicos de 12.281 esqueletos adultos. Todos tinham o sexo biológico identificado e foram encontrados em 673 sítios arqueológicos espalhados por 40 países da Eurásia ocidental e da região do Mediterrâneo.
Os vestígios cobrem um período amplo da história, desde a fase anterior à agricultura até a era moderna. Essa diversidade permitiu comparar hábitos alimentares em diferentes contextos sociais e econômicos.
A análise foi possível graças ao estudo de isótopos estáveis presentes no colágeno dos ossos. Esse método funciona porque os alimentos consumidos ao longo da vida deixam marcas químicas duradouras no corpo humano.
Entre esses indicadores, o nitrogênio-15 se destacou como principal sinal de consumo de proteína animal, como carne e peixe. Já o carbono-13 ajudou a identificar a ingestão de certos vegetais e outros alimentos.
Para evitar distorções causadas por diferenças entre regiões e épocas, os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada razão interdecílica. Em vez de analisar médias gerais, o método compara os extremos da população, ou seja, os 10% com maiores e menores níveis de determinado indicador.
Foi justamente nessa comparação que a desigualdade ficou mais evidente. Em todos os períodos analisados, os homens eram maioria entre os indivíduos com maior concentração de nitrogênio-15, ou seja, com maior consumo de proteína animal.
Os dados mostram que havia, em média, mais que o dobro de homens nesse grupo: 1.062 esqueletos masculinos contra 492 femininos. Isso indica um acesso desigual a alimentos considerados mais valorizados.
Na outra ponta, entre aqueles com menor consumo de proteína animal, predominavam as mulheres. Foram identificados 862 esqueletos femininos, contra 678 masculinos, nesse grupo de menor ingestão de carne.
Segundo os autores, esse padrão reforça a hipótese de que alimentos de maior prestígio social eram distribuídos de forma desigual entre homens e mulheres. A diferença, portanto, não estaria ligada a necessidades biológicas, mas a fatores culturais.
Os pesquisadores destacam que a desigualdade variou ao longo do tempo. Ela foi mais intensa no período Neolítico e na Idade Média, e menos acentuada durante a Antiguidade. Isso sugere influência direta das transformações sociais e econômicas.
O estudo também aponta que, no Neolítico, a alimentação era mais homogênea no geral. Já a partir da Idade do Bronze, houve aumento da desigualdade, possivelmente associado a mudanças na agricultura e na organização das sociedades.
Apesar da tendência predominante, o padrão não foi universal. Em cerca de 5% dos sítios analisados, as mulheres apresentaram maior consumo de proteína animal do que os homens.
Para os cientistas, esses casos mostram que a distribuição de alimentos variava conforme regras sociais, culturais e econômicas específicas de cada comunidade, e não seguia um modelo único em toda a Europa antiga.
R7
Foto: Freepik

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