A saída do Brasil do Mapa da Fome não garantiu que uma alimentação equilibrada chegasse à mesa de todos, informa reportagem do portal g1. Cerca de 44,8 milhões de brasileiros, aproximadamente um quinto da população, ainda não têm renda suficiente para comprar os alimentos necessários a uma dieta saudável, segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo, divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Publicado em julho de 2026, com dados até 2025, o levantamento mostra que ampliar o acesso a alimentos nutritivos permanece como um dos desafios para o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O país deixou novamente o Mapa da Fome em julho de 2025, mas a melhora não eliminou as desigualdades.

Outro indicador revela que 20,3 milhões de pessoas enfrentaram insegurança alimentar moderada ou grave entre 2023 e 2025. São brasileiros que não tiveram acesso regular a alimentos nutritivos em quantidade suficiente. No período de 2021 a 2023, eram 39,7 milhões.

“Onde estão essas pessoas? Nos domicílios chefiados por mulheres. No recorte racial, nos chefiados por mulheres negras. No regional, no Norte e no Nordeste”, diz José Graziano, ex-diretor-geral da FAO e idealizador do programa Fome Zero.

Renda e preços limitam acesso

A dificuldade para manter uma dieta saudável está relacionada aos salários baixos, à informalidade e à instabilidade dos rendimentos, segundo Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan.

“A trabalhadora doméstica, por exemplo, tem muita descontinuidade na renda. Por isso, sua família fica mais sujeita à insegurança alimentar”, exemplifica.

O custo dos alimentos também pesa. Segundo a FAO, uma dieta saudável no Brasil custava 4,89 dólares internacionais por pessoa ao dia em 2025, ante 3,97 em 2021. Essa unidade compara o poder de compra entre países e não pode ser convertida em reais pela cotação comercial do dólar.

Para elaborar a estimativa, a ONU considera uma cesta variada de alimentos e a renda disponível depois de despesas essenciais, como moradia, transporte e vestuário. O cálculo inclui cereais, frutas, verduras, leguminosas e fontes de proteína.

Além da renda insuficiente, especialistas apontam que alimentos frescos estão sujeitos a perdas, exigem cuidados de armazenamento e transporte e sofrem com oscilações de oferta. Secas, enchentes e o encarecimento de combustíveis e fertilizantes ampliam a pressão sobre os preços.

Distância da produção encarece a comida

Para Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), estimular a produção regional e aproximar agricultores dos consumidores são caminhos para reduzir custos e ampliar a variedade disponível.

“Não faz sentido, por exemplo, você produzir maçã em Santa Catarina, e levá-la para Manaus. Não quer dizer que as pessoas não têm direito de comer maçã. Quer dizer que a gente reduziu tanto a nossa diversidade que depende de circuitos longos. E isso impacta qualidade e preço do produto. Porque tem custo de transporte, de armazenagem e refrigeração.”

Entre as alternativas estão a ampliação de feiras livres, o incentivo à venda direta e o fortalecimento da agricultura familiar, responsável por 60% da produção de hortaliças.

A distribuição também impõe barreiras. Dados do Ministério do Desenvolvimento Social indicam que cerca de 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares entre 2023 e 2024, regiões com pouca ou nenhuma oferta de alimentos frescos e saudáveis.

Outros 15 milhões moravam em pântanos alimentares, onde predominam estabelecimentos que comercializam ultraprocessados em relação aos que oferecem opções saudáveis.

Continuidade das políticas é desafio

Os especialistas defendem a manutenção das políticas que contribuíram para a recuperação dos indicadores, como a valorização do salário mínimo e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). O programa compra produtos da agricultura familiar e os destina a pessoas em situação de vulnerabilidade e a instituições públicas.

“Embora a Constituição brasileira garanta o direito à alimentação, as políticas de segurança alimentar no Brasil não são políticas de Estado, como são as de saúde e educação, em que uma percentagem do orçamento é garantida”, destaca Graziano.

Outra prioridade é integrar saúde, assistência social e segurança alimentar para alcançar famílias que permanecem fora da rede de proteção. Essa é a proposta do Protocolo Brasil Sem Fome, em implantação pelo governo federal nos municípios com os piores indicadores.

A iniciativa pretende transformar atendimentos pontuais em acompanhamento contínuo. A busca ativa e o cruzamento de informações dos serviços públicos com o Cadastro Único também podem ajudar a identificar famílias e encaminhá-las aos programas necessários.

Agência do Poder
Foto: iStock
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