A fronteira entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, nesta região, é mais do que uma linha no papel; é um organismo vivo moldado por um "pertencimento silencioso".

1. O Vácuo de Poder e a Adoção pelo Vizinho

O território de um município não se mantém apenas com marcos de pedra, mas com presença. Por décadas, o poder público de Alexandria olhou para suas extremidades como periferias invisíveis. Esse "esquecimento" criou um vácuo que a Paraíba, por necessidade e proximidade, acabou ocupando. É o que vemos em Olho d’Águinha: o cidadão não olha para o mapa; ele olha para quem lhe estende a mão na saúde e na estrada.

2. O DNA e a "Regra do Sangue"

A identidade de uma comunidade nasce na árvore genealógica. Onde o Estado de origem é ausente, os laços de família e fé com o vizinho tornam-se a verdadeira lei. Se as famílias que ocuparam o chão vieram da Paraíba, o sentimento de "ser de lá" brota naturalmente, ignorando decretos oficiais. O sangue ignora a burocracia.

3. Uma Dinâmica Universal: Panati e Lamarão

Olho d’Águinha é o caso mais populoso, mas a lógica se repete em escalas diferentes:

O Panati:

Território de Alexandria (RN), mas com "capital" prática em Brejo dos Santos (PB). A proximidade física é tão esmagadora que muitos moradores sequer conhecem a própria sede potiguar.

O Lamarão (Hipotético):

Localizado em Bom Sucesso (PB), o Lamarão compartilha vínculos profundos com Alexandria. Se tivesse a mesma densidade urbana de Olho d’Águinha, veríamos o inverso: uma localidade paraibana orbitando inteiramente o Rio Grande do Norte por pura gravidade social.

4. A Verdade Útil: O Cálculo Pré-FPM

Antes dos repasses federais modernos (FPM), o território isolado era visto apenas como custo administrativo. Alexandria não se deu ao trabalho de demarcar ou assistir essas áreas porque, financeiramente, elas "não fechavam a conta". O desinteresse foi uma escolha econômica deliberada que custou a soberania cultural sobre o território.

Nota de Esclarecimento: O projeto Alexandria no Tempo e o Blog Folha Brejo-Santense documenta esses fatos sob uma ótica histórica e social. A jurisdição pode ser definida por lei, mas o pertencimento é conquistado por cuidado e presença. Onde a administração falha em criar caminho, o cotidiano cria raízes.
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